sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal!


Deixo vocês com este belo conto...


A noite em que os hotéis estavam cheios - Moacyr Scliar

O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.



sábado, 17 de dezembro de 2011

17 de dezembro - aniversário de Érico Veríssimo

No ano de 1905, na cidade de Cruz Alta, estado do Rio Grande do Sul, nascia neste dia 17 de dezembro o grande escritor Érico Veríssimo. Entre tantas obras importantes, destaco a saga "O Tempo e o Vento", da qual surgem personagens clássicos como o casal Ana Terra e Pedro Missioneiro e o valente e destemido Capitão Rodrigo Cambará. Outros personagens famosos na Literatura brasileira foram criados por Érico no chamado "Ciclo de Clarissa", romances que apresentam o cotidiano da vida na capital gaúcha e das pequenas cidades do estado, cobertas pelo tradicionalismo das famílias abastadas (algumas já não tão abastadas, como a do próprio escritor). A menina Clarissa, que o leitor acompanha desde os 14 anos até tornar-se uma mulher, seu primo Vasco Bruno com suas aventuras (que incluem guerras e romances), o amargurado Amaro, pianista frustrado apaixonado pela jovem Clarissa, o angustiado Eugênio, dividido entre a pobreza da família e o orgulho de se tornar um homem rico livrando-se de toda humilhação que sua condição financeira na infância acarretou; não podemos nos esquecer de Olívia, com suas cartas e seus pensamentos cristãos; e o que dizer dos mortos que voltam para reclamar seus direitos em "Incidente em Antares"? São tantos personagens que eu não conseguiria citar, acabaria cometendo injustiças, como esquecer da obra de Érico Veríssimo voltada para o público infantil, ou do soldado americano atormentado pela guerra e pelos conflitos pessoais em "O Prisioneiro".
O importante para mim é que Érico Veríssimo seja lembrado hoje om toda sua grandeza de homem consciente e escritor exemplar de grande importância para a literatura de língua portuguesa.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

16 de Dezembro

Olá amigos leitores do blog...
Há exatamente 26 anos, no dia 16 de dezembro, eu estava vindo ao mundo durante uma noite chuvosa. Mas este post não é só para falar do meu aniversário não, na verdade, neste mesmo dia 16 de dezembro nasceram dois escritores muito importantes para a Literatura mundial: são eles Jane Austen e Olavo Bilac.
A grande escritora inglesa Jane Austen nasceu no ano de 1775, em Steventon, no condado de Hampshire, filha do pastor anglicano George Austen e Cassandra Leigh.
A importância de Jane para a literatura é notável, pois seus livros se tornaram grandes clássicos mundiais e continuam amados até hoje, inspirando filmes, séries de TV e estudos sobre a obra de Austen.
O mais popular talvez seja "Orgulho e Preconceito", mas Jane também nos deixou "Razão e Sensibilidade", "A Abadia de Northanger", "Mansfield Park", "Emma" e por fim, o meu favorito "Persuasão".
No ano de 1915 Jane começou a sentir dores nas costas, fraqueza e muito cansaço. Os médicos nunca chegaram a um diagnóstico preciso, mas hoje, analisando os sintomas, existe uma certa inclinação pela Doença de Addison, doença rara e crônica em que as glândulas suprarrenais não produzem hormônios esteroides suficientes. Alguns dos sintomas são dores abdominais e fraqueza. Foi descrita pela primeira vez por Thomas Addison, em 1885, quase 40 anos após a morte de Jane Austen, que veio a falecer aos 41 anos, na manhã de 18 de julho de 1817. Quando morreu, a escritora já estava muito debilitada.
Já o "Príncipe dos Poetas" Olavo Bilac teve vida mais longa. Ele nasceu no dia 16 de dezembro de 1865 no Rio de Janeiro (capital) e faleceu na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918.
Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias.
Sua obra poética enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, pois só em 1888 publicou "Poesias", Olavo Bilac tornou-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia. Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista Fon-fon lançou em 1º. de março de 1913.
A sua obra pode ser disposta da seguinte forma: Poesias (1888); Crônicas e novelas (1894); Crítica e fantasia (1904); Conferências literárias (1906); Dicionário de rimas (1913); Tratado de versificação (1910); Ironia e piedade, crônicas (1916); Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.
Foi também um notável conferencista, escreveu contos e crônicas e, embora mais tarde os Parnasianos tenham sido o principal alvo de críticas dos Modernistas, Olavo Bilac tem destaque na Literatura como um dos mais típicos e perfeitos dentro do estilo Parnasiano.



domingo, 20 de novembro de 2011

20 de novembro - Dia da Consciência Negra (Viver outra vez)

Para o dia de hoje, recomendo a leitura do seguinte conto:

VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa

Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

- A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

- Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros.

Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

- O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado - fantasma que se escondia sob a cama.

- O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada?

Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

- Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

- Que foi?

- Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

- Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora.

Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar

“obrigado”.

- Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

- Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando futebol nas ruas.

- Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos, aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

- Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos?

Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

- Tem tanto pó!

- Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

- Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?

- Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado.

O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão da gargalhada.

Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

- Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora.

Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubina. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

- Coração?

- Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

- Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

- O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

- No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

- O que vocês fizeram foi bonito.

- São coisas que eu preciso esquecer.

- Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

- É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal e tirou o açúcar branco.

- A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou. Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

- Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão pré-menstrual? Que havia?

- Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos.Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

- Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.


Acho muito interessante a forma como os personagens vão descobrindo os sentimento e voltando mesmo a viver. A jovem que cresceu sem pai numa comunidade pobre, o idoso que viu seus sonhos de liberdade e igualdade não se concretizarem, que se sente melancólico ao ver que muitos não se importam com a questão racial e que, por isso, muitas histórias tristes continuam se repetindo. Neste conto o protagonista, através dos comentários realistas (ou pessimistas), exprime sua dor pela desigualdade:

"(...) No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.(...)"

Até mesmo o espírito ardente da juventude do qual a moça é imbuída não a livra de pensamento desanimadores:

"(...)- Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?(...)"

O Rap também aparece no conto como a Arte que populariza as histórias, muitas vezes tão semelhantes, fazendo com que os mais velhos se identifiquem nas letras atuais. É o passado e o presente que se assemelham:

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

- Racionais, conhece? Bom pra caramba.

"(...)Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa?(...)"

Com o passar do tempo, o idoso começa a demonstrar que seus sonhos podem não estar mortos:

- Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.

"(...)- É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia.(...)"

Por fim, aparece a esperança comum a todos: uma criança a caminha, os sonhos restaurados, tudo iria se iniciar novamente, a vida começa seu ciclo. Aquele filho era fruto do amor e dos sonhos daquelas duas pessoas. Não era apenas fisicamente que o idoso voltava a viver, eram seus sonhos que renasciam depois de tanto tempo de desilusões:

"(...)- Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem: É o filho – uns diziam.O neto – outros apostavam.- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.(...)"



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Dia de Finados

Dia 02 de novembro é o dia dos mortos, ou dia de finados, como queiram. Neste dia é comum todos refletirem sobre a morte. Pensando nisso resolvi fazer um post sobre a morte na literatura.
No conto alegórico "A máscara vermelha da morte" do norte-americano Edgar Allan Poe, temos em princípio uma epidemia que causa muitas mortes num país governado por uma monarquia nada preocupada com o povo. A soberba da família real tenta ser mais forte que as forças da morte e, por isso, resolve isolar toda a nobreza no grande castelo, longe da água e de todos as outras circunstâncias que poderiam ser causa da mortal epidemia.
A morte, no entanto, não aceita tal ousadia e, tomando forma quase humana, consegue entrar no castelo e levar consigo todos os reis, duques...embora tenha a função primordial de vilã, a Morte surge aqui como uma justiceira, aquela que promove a igualdade entre todos os seres humanos, mostrando aos nobres a fragilidade deles em relação ao corpo, fragilidade esta que nada os difere dos plebeus.
Outro romance no qual a "indesejada da gentes" resolve mostrar seu valor é o romance "As intermitências da morte" do português José Saramago. A morte, cansada de ser ofendida e indesejada, resolve fazer uma pausa nos seus serviços, deixando todos os habitantes de um país com a "dom" da imortalidade. Logo surgem as agruras de uma vida sem morte: população doente sem expectativas de fim do sofrimento, asilos lotados, até mesmo uma máfia que leva pacientes terminais para além das fronteiras para que possam morrer!
Quando resolve voltar a trabalhar, ela resolve mandar um aviso prévio através de uma macabra carta roxa, na qual os que serão buscados têm a morte anunciada e podem se preparar para recebê-la. Neste período o livro muda seu tom coletivo para individual, através da história de um músico solitário que, pela primeira vez consegue driblar a morte evitando receber a carta.
Mais uma vez inconformada com tal ousadia, a "indesejada das gentes" toma forma humana, na verdade uma bela forma humana, e vem para a Terra para entregar pessoalmente a carta fúnebre. Pena que ela não conhecia muito bem sentimentos tão humanos como o amor...bom, mas esta é uma outra história.

Dia de Todos os Santos - Tomás Morus


Dia 01 de novembro é o dia de todos os santos, comemorado pela Igreja Católica. Pensando nisso, resolvi aliar este tema com Literatura e pensei no Inglês Tomás Morus. Sim, ele é um santo da Igreja Católica, mas também é um grande escritor da língua inglesa, sendo responsável por uma das obras mais apreciadas pela crítica: "Utopia".
Thomas Morus, forma alatinada por que é literariamente conhecido Thomas Moore, Grande Chanceler da Inglaterra, nasceu em Londres em 1478 e foi aí decapitado em 1535. Filho de um dos juízes do banco dos reis, foi aos quinze anos colocado como pagem do Cardeal Morton, Arcebispo de Cantuária. Em 1497 foi terminar seus estudos em Oxford, onde conheceu Erasmo. Fez durante três anos o curso de Legislação, ao mesmo tempo que se preparava para exercer a advocacia.
Pouco depois da ascensão de Henrique VII, foi referendário e membro do Conselho Privado (1514). Acompanhou o rei da Inglaterra ao campo de Drap d’or em 1520. Após a queda do cardeal Wolsey foi nomeado Grande Chanceler (1529).
Quando Henrique VIII abjurou o catolicismo, Morus, então ligado à Igreja Romana, pediu demissão do cargo (1532), descontentando com esse gesto o Rei. No ano seguinte ofendeu mortalmente Ana Bolena, recusando-se a assistir à sua coroação e a prestar fidelidade a seus descendentes. Foi condenado à prisão perpétua e ao confisco de todos os seus bens. Pouco tempo depois foi condenado à morte por crime de alta traição e decapitado em Londres em 1535.
A “Utopia”, sua obra mais divulgada, e que lhe deu renome universal, foi editada em Basileia (Suíça) por Erasmo a quem Morus estava ligado por fortes laços de amizade e a quem revelava, em sua correspondência particular, a repugnância que sentia pela vida parasitária e faustosa da corte: “Não podes avaliar”, escrevia-lhe, “com que aversão me encontro envolvido nesses negócios de príncipes; não há nada mais odioso que esta embaixada”... Referia-se à embaixada diplomática enviada pelo Rei da Inglaterra a Flandres afim de resolver um dissídio surgido entre este pais e o príncipe Carlos de Castela.
A “Utopia” representa a primeira crítica fundamentada do regime burguês e encerra uma análise profunda das particularidades inerentes ao feudalismo em decadência. A forma é muito simples; é uma conversação íntima durante a qual Morus aborda ex-abrupto as questões mais novas e mais difíceis. Sua palavra, às vezes satírica e jovial, outras, de uma sensibilidade comovedora, é sempre cheia de força.
A primeira parte é o espelho fiel das injustiças e misérias da sociedade feudal; é, em particular, o martirológio do povo inglês sob o reinado de Henrique VII. Entretanto, o povo inglês não era vítima unicamente da avareza do rei; outras causas de opressão e sofrimento o atormentavam. A nobreza e o clero possuíam a maior parte do solo e das riquezas públicas; estes bens permaneciam estéreis para a grande massa de trabalhadores. Além disso, nessa época, os grandes senhores mantinham uma multidão de vassalos, seja por amor ao fausto, seja para assegurar a impunidade de seus crimes ou ainda para utilizá-los como instrumentos de violência contra os vilões. Esta vassalagem era o terror do camponês e do trabalhador.
De outro lado, o comércio e a indústria da Inglaterra não tinham muita expansão antes das descobertas de Vasco da Gama e Colombo. E assim, as gerações se sucediam sem finalidade, sem trabalho e sem pão. A agricultura estava em ruínas desde que a nascente indústria da lã, prometendo lucros espantosos, fez com que terras imensas fossem transformadas em pastagens para carneiros. Em conseqüência disto uma multidão de camponeses viu-se reduzida à miséria, trazendo uma multiplicação de mendicidade, vagabundagem, roubos e assassínios. Por sua vez a lei inglesa era de uma severidade inaudita, punindo com a morte, indistintamente, o ladrão, o vagabundo e o assassino.
Com semelhante panorama social diante dos olhos, compreende-se a dureza e amargura das críticas de Morus contra uma sociedade tão profundamente desorganizada e injusta.
Thomas Morus, depois de ter na “Utopia” feito uma sátira a todas as instituições da época, edifica uma sociedade imaginária, ideal, sem propriedade privada, com absoluta comunidade de bens e do solo, sem antagonismos entre a cidade e o campo, sem trabalho assalariado, sem gastos supérfluos e luxos excessivos, com o Estado como órgão administrador da produção, etc.
Embora o caráter essencialmente imaginário e quimérico da “Utopia”, a obra de Morus fica na história do socialismo como a primeira tentativa teórica da edificação de uma sociedade baseada na comunidade dos bens. E o seu nome ficou para sempre incorporado ao vocabulário universal como o significado do todo sonho generoso de renovação social...
Quatro séculos depois da sua morte, em 1935, Tomás Morus foi canonizado pela Igreja católica.

domingo, 2 de outubro de 2011

Lembranças de um bruxo muito especial...



Não...não estou falando de nenhuma franquia de filmes que teve o último episódio finalizada este ano. Estou falando do "Bruxo do Cosme Velho", como ficou conhecido o mestre Machado de Assis. No dia 29 de setembro, precisamente no ano de 1908, Joaquim Maria Machado de Assis deixava este mundo e, como legado, obras clássicas que marcaram a Literatura mundial. Sim, Machado de Assis escreveu com maestria romances inovadores, únicos, que encantam leitores de todas as gerações. Coube a ele também o papel de exímio contista. Além de trabalhar em cargos públicos e na imprensa, o grande escritor era crítico literário, poeta, dramaturgo...foi realmente um homem que soube usar como ninguém o dom da inteligência e da criatividade, o poder de um pensamento que criticava a sociedade esbofeteando-a com luvas de pelica através de seus escritos.
Quem dera que ele fosse lembrado por todas as escolas, que as pessoas celebrassem Machado de Assis como figura popular e acessível a todos, mas ainda tenho esperança de que um dia todos os brasileiros venham a conhecer a obra do Bruxo do Cosme Velho, que sua casa neste mesmo bairro, produziu personagens e enredos espetaculares e extremamente importantes para a cultura nacional.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Literatura em Quadrinhos



As histórias em quadrinhos (popularmente conhecidas como HQs) sempre foram populares entre crianças, jovens, adolescentes e até mesmo adultos. Já serviram de inspiração para filmes, seriados de TV, e muitos personagens acompanharam e se tornaram símbolos de gerações. Quem não se lembra dos "Peanuts" ? A turma de Charlie Brown encanta gerações mesmo depois de tempos passados desde a sua primeira aparição. E os nossos brasileiros Cascão, Cebolinha, Magali, Mônica, Chico Bento...? A "Turma da Mônica" é um clássico nas prateleiras das bibliotecas e cai no gosto popular dos leitores.

E quando grandes clássicos da literatura são transportados e adaptados para os quadrinhos? Será possível unir a linguagem elaborada dos grandes clássicos com a informalidade das HQs? E os temas, poderia o público jovem se adaptar a eles? Claro que sim! As HQs podem aproximar os leitores jovens dos romances e contos clássicos. Crianças e jovens podem apresentar maior recepção às características dos quadrinhos. O eero acontece quando os leitores acreditam que a leitura do texto em forma de quadrinhos dispensa a leitura dos originais. A leitura das HQs são valiosas, mas não devem ser únicas, pois as adaptações não podem suprir a riqueza dos clássicos em termos de linguagem, estilística, estrutura, entre tantas outras características.

O bom leitor tem o direito de conhecer a versão original do clássico que leu de forma adaptada para os quadrinhos, sabendo que toda literatura é válida quando cria novas expectativas, mas o leitor não pode ser privado da leitura dos clássicos originais, pois têm o direito de conhecer integralmente as grandes obras deixadas para a humanidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mangás



O Blog Devaneios literários nunca falou sobre quadrinhos ou literatura semelhante. Farei posts com alguns desenhos conhecidos como "Mangás". Eu sou leiga no assunto, mas resolvi postá-los. Eles foram feitos por um aluno chamado Miguel, 13 anos. Acredito que estes desenhos mostram um talento muito interessante que está se desenvolvendo neste adolescente e espero que um dia ele venha a escrever e publicar suas próprias histórias. Espero que gostem....

Mangás




O Blog Devaneios literários nunca falou sobre quadrinhos ou literatura semelhante. Farei posts com alguns desenhos conhecidos como "Mangás". Eu sou leiga no assunto, mas resolvi postá-los. Eles foram feitos por um aluno chamado Miguel, 13 anos. Acredito que estes desenhos mostram um talento muito interessante que está se desenvolvendo neste adolescente e espero que um dia ele venha a escrever e publicar suas próprias histórias. Espero que gostem....

Mangás




O Blog Devaneios literários nunca falou sobre quadrinhos ou literatura semelhante. Farei posts com alguns desenhos conhecidos como "Mangás". Eu sou leiga no assunto, mas resolvi postá-los. Eles foram feitos por um aluno chamado Miguel, 13 anos. Acredito que estes desenhos mostram um talento muito interessante que está se desenvolvendo neste adolescente e espero que um dia ele venha a escrever e publicar suas próprias histórias. Espero que gostem....

Mangás



O Blog Devaneios literários nunca falou sobre quadrinhos ou literatura semelhante. Farei posts com alguns desenhos conhecidos como "Mangás". Eu sou leiga no assunto, mas resolvi postá-los. Eles foram feitos por um aluno chamado Miguel, 13 anos. Acredito que estes desenhos mostram um talento muito interessante que está se desenvolvendo neste adolescente e espero que um dia ele venha a escrever e publicar suas próprias histórias. Espero que gostem....

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mangás




O Blog Devaneios literários nunca falou sobre quadrinhos ou literatura semelhante. Farei posts com alguns desenhos conhecidos como "Mangás". Eu sou leiga no assunto, mas resolvi postá-los. Eles foram feitos por um aluno chamado Miguel, 13 anos. Acredito que estes desenhos mostram um talento muito interessante que está se desenvolvendo neste adolescente e espero que um dia ele venha a escrever e publicar suas próprias histórias. Espero que gostem....




quarta-feira, 6 de julho de 2011

“Auto da Índia” de Gil Vicente e “Vicente” de Miguel Torga – Comparação.



Sendo o texto de Gil Vicente uma farsa (teatro) , temos o discurso direto em todos os momentos, enquanto o conto “Vicente” é uma narrativa em terceira pessoa. Quando Gil Vicente escreveu a farsa “Auto da Índia”, com a linguagem que hoje para nós é arcaica, a fase áurea das navegações portuguesas era evidente por grandes façanhas, talvez a mais importante delas fosse o descobrimento do Brasil, país de extensão continental e povoado de riquezas naturais que garantiriam lucro aos “heróis portugueses”. Era o mar, portanto, um gigante amedrontador que havia sido vencido. No conto de Miguel Torga temos a intertextualidade com a Bíblia e um importante episódio presente nela: O dilúvio. As águas eram, naquele momento, sinal da ira de Deus pelo pecado do homem e simbolizava a destruição. O corvo, animal que tem sua imagem ligada ao “mau Agouro”, às trevas, é escolhido para representar um ato de rebeldia contra Deus; a fuga da arca é a não aceitação dos desígnios divinos.
Nos dois textos temos atitudes de rebeldia. Na farsa, AMA agradece o mar por tirar-lhe o marido e permitir-lhe viver aventuras com outros homens. No conto, Vicente voa livremente sobre as águas, num desafio a Deus e à submissão.
Mas temos uma situação comum tanto a farsa de Gil Vicente quanto ao conto de Miguel Torga; o mar representa a liberdade, a aventura, o NÃO a opressão da sociedade ou de outras forças supremas.

Manuscrito encontrado numa garrafa - Edgar Allan Poe




O mar nunca pareceu tão sombrio e enigmático como no conto “Manuscrito encontrado numa garrafa” de Edgar Allan Por. A calmaria descrita no início é mais assustadora e preocupante que qualquer procela.
Se “depois da tempestade sempre vem à bonança”, no enredo do conto citado acima, depois da bonança vem à tempestade. Desta forma, o mar é o próprio mistério, algo sobrenatural e superior ao homem que o submete a seus caprichos e as suas vontades.
O vento que sopra sobre ele dá-lhe um aspecto selvagem, como se fosse a própria morte que deseja tragar os “intrusos” que se aventuram pelas grandes águas marinhas.
O mar surge como um personagem, um antagonista que vai se opor ao angustiado protagonista que luta para manter-se vivo (ou já estaria morto?), e representa todo o horror na sua “Treva profunda” e seu negrume de ébano.
Se Castro Alves, poeta brasileiro romântico, no seu poema pessimista “Adeus” cita o mar como “O Jó eterno”, ou seja, o representante do sofrimento sem fim, podemos dizer que Poe, no desfecho do conto, dá esta característica ao mar, pois, o sofrimento e o mistério que envolvem o protagonista, além da sua angústia, não terminam, se tornam apenas um ciclo de luta psicológica e física.
Só então temos a explicação do título. Os famosos “manuscritos nas garrafas” que já foram mensageiros de amores proibidos e intensos, agora são descrições de tragédias marítimas de um marinheiro angustiado.

Iracema - José de Alencar

O mesmo mar que aproxima dois mundos pode também distanciá-los. A vida “Além- mar” do Novo Mundo é repleta de mistérios e aventuras para os descobridores. O europeu Martim esperava encontrar o amor nas índias Ocidentais? O certo é que, o primeiro contato entre ele e a índia foi fatal; logo surgiu a paixão que uniu velho e novo mundo e formou uma nova raça.
Quando Martim chega a América, encontra-se com Iracema (anagrama de América). O mar proporciona o encontro de duas culturas diferentes que logo entrariam em conflito. As águas que trazem o descobridor valente aos trópicos serve como ponte para uma nova ideia de civilização que os europeus acreditavam não ser possível existir. Quem se aventura-se neste mar poderia pagar um alto preço. Dominar o mar, segundo Fernando Pessoa, poderia custar o choro de mães, noivas abandonadas, que o tornaram salgado, tamanha a quantidade de lágrimas choradas.
Desta forma, o mar seria glória para os estrangeiros vindos do Velho Mundo, mas seria a perdição para os nativos do Novo Mundo, pois teriam suas terras invadidas e seus povos dizimados por conquistadores que não admitiam outras culturas.
Quando Martim vai embora de volta para a Europa, levando Moacir, fruto de seu amor com a índia Iracema, temos um retrato da “sina” dos nordestinos, obrigados a sair da sua terra em busca de novas coisas, novas oportunidades.
Era a formação de uma nova raça (ou etnia), a dos brasileiros, povo mestiço, consequência do sucesso ou fracasso das grandes navegações do século XVI.
O mar é, então, a fuga de volta para a casa, na qual Martim leva algo da América para si.

O velho e o Mar - ( Ernest Hemingway ) - Enquanto houver sonho, haverá luta




Ao ler um romance intrigante, logo pensamos em como seria um filme baseado nesta obra. É possível produzir uma obra cinematográfica semelhante à obra escrita? Algum diretor ou algum ator conseguirá passar para a tela grande a emoção que o personagem passou no livro?
Quando as páginas de “O velho e o mar” de Ernest Hemingway chegam ao fim, temos a sensação se missão cumprida do velho Santiago exposta aos demais pescadores da enseada e a todos os leitores. Sentimo-nos exaustos depois de tamanha luta, que não se resume apenas a conservação da integridade física, mas também a conservação da integridade moral.
O velho Santiago parece frágil fisicamente no romance, diferente do senhor gordinho que o interpreta no filme. Mas a diferença física não dificulta a interpretação do protagonista Spencer Tracy, grande representante dos tempos áureos de Hollywood.
A pele queimada de Santiago destaca-se no filme ainda mais que no romance, retificando a sua imagem de homem do mar, que tem as águas como própria casa. Sendo o velho e o mar um romance “de um homem só”, que tem sua narrativa centrada num único personagem humano que tem como oponentes um peixe e o próprio mar, que serve de alento, mas também de perigo, o filme pode se tornar enfadonho para aqueles que não sabem apreciar uma obra reflexiva, que não é centrada apenas em intrigas tipicamente sentimentalóides do ser humano.
Mas qualquer obra da sétima arte, mesmo aquelas produzidas numa época mágica como a década de cinquenta, não consegue passar na sua narrativa, a intensidade cognitiva que o romance escrito passa. Os sonhos de Santiago, seus desejos de sobrevivência, a consciência de que o mais forte sobrevive na lei da selva, ou lei do mar, não são transmitidas plenamente no filme, pois para que esta emoção seja transmitida, precisa haver interação imaginativa entre o leitor e a obra, e esta interação é mais forte e completa quando podemos saborear as frases e cada momento de luta sozinhos com a nossa mente, assim como o velho Santiago está sozinho na sua luta no mar.

O velho e o Mar (Ernest Hemingway) - Estória para pescadores e para sonhadores





O velho Lobo do mar sai à procura de sua maior conquista. Ele consegue atingir seu objetivo e, por muito tempo, o povoado vai ter o que falar. A pesca é uma das profissões mais antigas, segundo o credo popular, por ser o ofício de alguns dos apóstolos de Cristo. Lançar as redes ao mar foi se tornando uma espécie de simbologia da fartura, o mar que “Está para peixe”.
Por que Santiago teria que se auto-afirmar provando que ainda era capaz de ser um bom pescador? Talvez porque os homens necessitam disso, é a lei da “Selva”, na qual o mais forte sobrevive, por isso é necessário ser sempre o melhor e mostrar que é o melhor.
“O Velho e o Mar” não é apenas uma estória de pescador, não contêm o exagero por si só, sem alguma expectativa. Para o velho Santiago, o peixe pelo qual ele quase dá a vida, é uma prova de que ele ainda pode se sentir vivo, a confirmação de que ele existe e é bom naquilo que gosta de fazer: pescar. Nada melhor para um homem solitário do que isolar-se na imensidão das águas, nas quais ele pode enxergar-se e sentir-se parte daquela imensidão.
A tradição popular trata com humor os “causos” contados por pescadores, que garantem ter pescado peixes tão grandes que eles nem conseguiram guardar como prova, basta fiar-se na palavra. Santiago precisava de mais do que uma prova física de que foi capaz de pescar um grande peixe. Ele precisava provar a si mesmo que o mar não era páreo para ele, que ele ainda dominava a natureza quando tirava dela o fruto marinho. Era o sonho que ainda vivia, e, enquanto houver sonho, vai haver vida.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Os casamentos mais marcantes





Dia 13 de junhofoi dia de Santo Antônio, um dos Santos mais populares da Igreja Católica. Grande parte da sua popularidade se deve ao fato de creditarem a ele a fama de "casamenteiro". Sem entrar em questões religiosas, quero lembrar alguns casais unidos pelo casamento para o bem ou para o mal.

Na Literatura Brasileira temos bons exemplos de casamentos marcantes. O casal bentinho e Capitu, do memorável romance "Dom Casmurro" de Machado de Assis, teve que lutar muito para poder chegar até o casamento. A promessa da mãe do rapaz, que dava ao jovem Bentinho a carreira religiosa, teve que ser vencida, as dificuldades todas da juventude foram vencidas, até que chegou o tão esperado dia. Machado de Assis não se prende muito na cerimônia que uniu o jovem casal desde tão cedo apaixonado, ele logo partiu para as situações da vida matrimonial...os primeiros dias de convívio, o medo de Bentinho de que Capitu se sentisse cansada da união tão sonhada, as primeiras reuniões sociais, as visitas, os ciúmes. Logo a vida social do casal Capitu e Bentinho torunou-se mais agitada, pois junto com Sancha e Escobar (outro casal da trama), ele frequentavam bailes e participavam de episódios importantes da sociedade fluminense. Com o passar do tempo, surgiu a necessidade de ter filhos, o caminho natural para o casal. A falta do filho esperado era uma nuvem de tristeza e angústia para o futuro Dom Casmurro e a misteriosa Capitu. Quando veio o pequeno Ezequiel tudo parecia perfeito, o álbum de família estava completo. Mas, como todos sabem, ele não ficou tão completo assim por muito tempo...mas esta é uma outra história.

Um casamento que deu muito o que falar foi o de Fernado e Aurélia do romance "Senhora", obra de José de Alencar. A moça "compra" (palavra muito vulgar, mas não encontro outra) o jovem Fernando para ser seu marido, procurando vingar-se do abandono que este cometera algum tempo antes, por motivos finaceiros. Já na noite de núpcias as coisas não vão bem, pois o casamento não é consumado e Aurélia deixa bem clara a sua intenção com aquela união.

São meses e meses de humilhações e cenas que mostram o quanto a jovem esposa era orgulhosa, mas sentia-se dividida entre o amor e a vingança daqual buscava forças para continuar seus planos humilhantes.

Só nas últimas linhas do romance o "santo amor conjugal" é consumado e Fernando e Aurélia são, enfim, um casal "de verdade".

Claro que há outros inúmeros romances, contos e novelas que possuem bons exemplos que eu poderia citar neste post, mas resolvi me ater a estes por conhecê-los tão bem e por entender que neles a vida conjugal é descrita em detalhes, sejam eles idealizados ou não. O casamento no dia-a-dia, nas reuniões da sociedade, na intimidade de uma casa, com seus ciúmes, suas intrigas, suas tramas desenvolvidas através da união de dois seres que não possuem ligações sanguineas...isso é muito interessante e subjetivo. De onde vem esta vontade de, como disse Renato Russo, "deixar a segurança do seu mundo por amor"? Vem de uma força inesplicável que leva duas pessoas a aceitarem o desafio de dividir uma vida nos bons e maus momentos...de uma forma ou de outra, os dois casais citados tentaram viver assim. O primeiro não conseguiu, pois, para Machado de Assis, o mais importante não era finalizar de uma forma "feliz" o relacionamento de Bentinho e Capitu, já que, na crítica aos pilraes da sociedade burguesa, o casamento é um dos alvos mais comuns e naturais.

Já o segundo casal citado recomeça uma vida a dois no final do romance e deixa a todos com um gostinho de "como será a convivência agora que estão reconciliados?" É, não teria graça talvez.





sexta-feira, 6 de maio de 2011

Duas mães muitos sofredoras

Na Literatura, arte que trabalha com as emoções humanas, duas mães ganham espaço em duas obras do século XIX.

O político e austero José de Alencar, no ano de 1859, lança sua peça "Mãe", na qual a protagonista Joana faz todos os sacrifícios possíveis e impossíveis para conservar a felicidade do filho que não sabe da condição escrava da mãe. Joana é a típica mulher conformada com as situações que a vida lhe impõe, primeiro na condição de escrava que a leva a desfazer-se do filho e conservar-se na posição de serviçal para poder aproximar-se dele e sentir sua dor diminuir. Não é de se espantar o enredo conformista, já que Alencar era escravocrata e conservador. Ele não possuía arroubos abolicionistas que poderiam transformar a trama de "Mãe" num grito pela liberdade e pela justiça final, na qual mãe escrava e filho livre viveriam felizes para sempre. A solução para que o filho ficasse bem e a mãe demonstrasse seu grande amor, foi a doação final, a morte de Joana em sacrifício do filho.

Alguns anos mais tarde, Machado de Assis escreveria um conto de título enigmático..."Pai contra Mãe". Mais uma vez temos uma mãe escrava que luta pela vida do filho. Ao opor a mãe negra e o pai branco, Machado de Assis constrói um enredo crítico não só nas questões raciais, mas também na questão antropológica, pois, quando o pai tenta livrar sua consciência da morte do bebê escravo ainda no ventre da mãe, ele não se mostra arrependido pelo mal que fez, só tenta se livrar de qualquer culpa, como um criminoso que não se arrepende pelas vítimas, mas sim, pelo castigo que lhe será destinado.

A mãe escrava, no conto de Machado de Assis, aparece apenas na cena final, mas sua dor parece que transcende o papel, tão forte e tão doída; a dor de perder o filho.

Quanto valia a vida do pequeno escravo? para a mãe era tudo que importava.

Machado de Assis fugiu aos estereótipos e gritou para a sociedade sua revolta com estas situações opressoras. Mestre, fez isso através da palavra.

No Romantismo ou no Realismo, ser mãe é padecer no paraíso.

domingo, 24 de abril de 2011

Ressurreição na Literatura

No domingo de Páscoa os cristãos de todo o mundo comemoram a Ressurreição de Jesus Cristo, ponto máximo da fé Cristã, centro de todos os preceitos que fundamentaram uma das três maiores religiões monoteístas que a humanidade já conheceu.

Na literatura, a Ressurreição tem este mesmo sentido cristão, de novo nascimento, vida nova, ressurgimento...só que de outras formas.

No Brasil, o grande escritor Machado de Assis iniciou-se nos romances com a obra "Ressurreição" no ano de 1872. No livro, temos o solteirão Félix que, tendo o coração sepultado há muitos anos, vê uma possibilidade de ressurreição quando se apaixona pela bela viúva Lívia. Diferente dos princípios cristãos, nos quais a Ressurreição é uma vitória inabalável, o coração de Félix não permanece muito tempo no mundo dos vivos e volta ao seu amargor passado, levado pelo ciúme e pela insegurança que cercavam sua relação com a viúva desde o início. Muito bem aceito pela crítica da época, este romance faz parte da obra de Machado de Assis dita romântica. Este período do escritor teria fim em 1881, com o lançamento de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", livro único em nossa literatura, que inicia, cronologicamente, o estilo Realista em terras brasileiras.

No ano de 1899, pouco antes da sua morte, o grande escritor russo Leon Tolstói publicou o romance "Ressurreição", romance que, infelizmente, não tive a oportunidade de ler ainda, mas segundo o cientista político Paulo Sergio Pinheiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que assina o texto da quarta capa de "Ressurreição",lançada no Brasil no ano de 2010 pelo centenário de morte de Tolstói, trata-se de "um dos maiores romances de todos os tempos, ao demonstrar a interdependência entre privilégio e violência, através de um preciso desvendamento das relações de poder na sociedade".

E muitos outros romances, contos e poemas, apresentam esta visão da vida que começa novamente, se renova...fazendo, mesmo sem planejar, uma intertextualidade com a Bíblia.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dia 02 de abril - Dia mundial da Literatura Infantil

No dia 02 de abril, o mundo comemora o dia mundial da Literatura infantil (ou infanto-juvenil). Neste dia nasceu o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. A contribuição deste autor para o gênero infantil foi tão grande que, o dia do seu aniversário, é uma data feita para lembrar das obras voltadas às crianças. A medalha mais famosa concedida aos profissionais da Literatura infantil também recebe o nome dele e, sua popularidade permitiu-lhe ser enredo de uma escola de samba no Brasil, há dois anos.

Tendo o escritor sofrido muito na infância pobre, levou para as páginas dos livros alguns estereótipos de pessoas excluídas por serem diferentes, como o "belo" "Patinho Feio", desprezado até pelos familiares por ser diferente, ninguém imaginava que o que todos julgavam ser feiúra, era apenas uma fase que o levaria à beleza de cisne.

Há também o "Soldadinho de Chumbo", "A menina dos fósforos"...e eu poderia fazer uns quinhentos posts com todas as obras deste grande escritor.

E o que dizer da "Pequena Sereia"? A princesinha dos mares é muito mais do que as inocentes adaptações comercializadas na Disney.

A literatura infantil não é manual de boas maneiras como pensou-se (e ainda se pensa) por muito tempo. A boa literatura infantil liberta a criança e a faz procurar seus próprios caminhos com autonomia, sem pervertê-la ou fazer com que perca suas características infantis, como muitas obras equivocadas que tratam a crianças como se ela fosse um "adulto em miniatura", sem necessidades diferenciadas.

A mudança de definição sobre a criança inserida num contexto social e familiar mudou com a História. Os núcleos familiares, depois da Revolução Francesa, tornaram-se mais intímos e a relação entre pais e filhos tornou-se mais próxima. ´

Monteiro Lobato, ícone da Literatura infantil brasileira, dizia que "Um país de faz de homens e livros"... uma infância feliz vai muito além da televisão e do videogame; as crianças merecem conhecer os clássicos e as obras contemporâneas, merecem viajar sem sair de casa e tornarem-se livres para conhecerem a si próprias e o mundo que as rodeia.


terça-feira, 22 de março de 2011

Mocidade e Morte - Castro Alves

Já fiz um post neste blog sobre o poeta Castro Alves. Eu dizia sobre a dificuldade de definir sua obra em apenas uma face, já que ele escreveu belos poemas líricos, muito poemas libertários e também poemas cercados por um pessimismo característico do Romantismo de Lord Byron e Musset. O "Poeta dos Escravos" cantava temas nacionais e coletivos, mas, como bom romântico, cultivava o egocentrismo e seus problemas sentimentais. O poeta baiano cuidava de denunciar as injustiças ocorridas em solo brasileiro, mas também buscava inspiração nos moldes franceses e ingleses.
Sentindo a angústia da morte próxima ainda na juventude, Castro Alves via-se cada vez mais próximo de partir deste mundo deixando nele as delícias de uma vida boêmia e de um futuro promissor nas artes literárias. Tal situação rendeu um poema intenso e extremamente pessimista, no qual sentimos a dor do jovem que se depara com uma partida indesejada e precoce.
Um poema, em especial, define o que eu digo, a começar pelo título;



Mocidade e morte

Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
A sombra fresca da palmeira erguida.

Na primeira estrofe temos o boêmio deslumbrado, que sente perder as delícias da paixão ao lado da mulher amada. mas há um estribilho:

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Ele iria, então, trocar o leito de amor pela lájea fria de um sepulcro.
Há sempre a oposição: A vida que é prazerosa e a Morte que, para Castro Alves, não é bem vinda.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...

Mais uma vez temos o apego do poeta à vida e aos prazeres que ainda estão por vir nos braços da amada.
Mas, novamente, ele constata:

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Era a morte que ria dos seus sonhos de vida.

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio,
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n'alma
E o eco ao longe me repete — avante! —
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após — um nome do universo n’alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

Na terceira estrofe temos o apego do poeta à glória futura, furto de seu talento e de seu ardor como literato. É mesmo triste pensar quantas obras poderiam ter sido escritas por Castro Alves se ele tivesse uma chance de prolongar seu tempo na Terra.
Mas a morte novamente lhe responde:

E a mesma voz repete funerária:
Teu Panteon — a pedra mortuária!

Morrer — é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta —
Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco
Da larva errante no sepulcro fundo,

Na quarta estrofe, o poeta mostra mais uma vez a oposição entre as belezas da vida e a trieteza da morte, vista como o fim de tudo.
Só lhe sobraria então:

Ver tudo findo... só na lousa um nome,
Que o viandante a perpassar consome.

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem Por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo florido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo — que vaga sobre o chão da morte,
Morto — entre os vivos a vagar na terra.

Na quinta estrofe temos a certeza do poeta de que vai morrer, ele é o cipreste que, mesmo florido, carrega a sombra da morte.
E novamente ele escuta:

Do sepulcro escutando triste grito
Sempre, sempre bradando-me: maldito!

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita..
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida — novo Tântalo
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O estilete de Deus quebra-me a taça.

Na sexta estrofe temos, novamente, a dor do poeta e a constatação de que a partida será muito cedo, antes do que deveria ser.
A agonia extrema é expressa em:

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória - nada, por amor — a campa.


A última estrofe é mesmo o fim, a despedida, as recomendações para os que ficam.
O poema tem um desfecho dramático:

Adeus... arrasta-me uma voz sombria,
Já me foge a razão na noite fria! ...

Agora, me respondam, Lord Byron ficaria ou não orgulhoso?






domingo, 6 de março de 2011

Minha Prima Raquel - Daphne Du Maurier

"Há mulhres, Philip, até mesmo mulheres bondosas, que, sem terem qualquer culpa, atraem a desgraça. Transformam em tragédia tudo que tocam". A enigmática frase de Nick Kendall ao afilhado Philip, deixa claro o tom de dúvida e suspense que cerca o romance "Minha Prima Raquel", da inglesa Daphne Du Maurier.
No sul da Inglaterra, especificamente nos campos da Cornualha, vive Ambrose Ashley, um solteiro convicto, filho de uma tradicional família rica. Vivendo sozinho na propriedade com seu primo Philip, vinte anos mais novo e criado como seu filho, Ambrose tem uma vida tranquila que muda completamente devido a um problema de saúde que o faz viajar durante o inverno para terras do continente onde o clima não o desfavoreça tanto como fazia o gelado inverno inglês. Nas duas primeiras viagens nada acontece que tire Ambrose do seu casulo, mas durante a terceira viagem, na cidade de Florença, na Itália, ele conhece Raquel, uma viúva italiana de ascendência inglesa (era prima de Ambrose). Seu sobrinho Philip e seu grande amigo Nick Kendall ficam surpresos ao receberem a notícia do casamento repentino do solteirão convicto com a viúva italiana. Mais surpresos ainda eles ficam ao receberem cartas estranhas, nas quais Ambrose escreve palavras desesperadas ao primo Philip, acusando Raquel de ser "o seu tormento".
Quando Philip chega à Florença já é tarde demais. A Vila na qual Ambrose vivia está vazia, Ambrose morrera, segundo os médicos italianos a doença que lhe tirou a vida foi um tumor no cérebro que causou uma febre violenta. Raquel, sua esposa, saíra de Florença um dia após a morte do marido. Com o coração ferido pela perda do seu protetor, Philip, agora Mr. Ashley, jura vingar-se da mulher que acredita ser a acusadora dos males que levaram Ambrose à morte. A imagem da odiosa e persuasiva mulher faz com que Philip sinta grande repulsa e tenha cada vez mais certeza de que Raquel é culpada por toda a tristeza que caía sobre a casa Ashley. Esta ideia fica ainda mais forte quando o jovem conhece Rainaldi, italiano que serve como conselheiro da viúva Raquel Ashley. Philip odeia o italiano desde o primeiro momento e pensa ser afortunado se nunca mais vier a ver o senhor Rainaldi.
Ao voltar para a Inglaterra, Philip sente-se cada vez mais parecido com o primo Ambrose e não se conforma com sua morte em terras distantes. Nem mesmo as colocações do padrinho Kendall; que dizia ser muito pertinente a opinião dos médicos italianos, já que o pai de Ambrose também morrera vítima de um tumor cerebral; faz com que o coração de Philip sinta-se mais tranquilo quanto ao tipo de tratamento que Ambrose teve na Itália.
Ao receber a notícia de que a prima Raquel viria visitar a casa do falecido marido na Cornualha, Philip resolve tratá-la de uma forma grosseira, para que ela percebesse todo o mal e a mágoa que causara àquela casa.
A presença de Raquel, porém, desarma o jovem inglês, que percebe que odiara por todos aqueles dias uma mulher que não existia, já que Raquel não tinha a aparência nem o comportamento de uma mulher dissimulada, capaz de fazer mal ao marido.
Aos poucos, a convivência vai matando todas as desconfianças que preenchiam o coração de Philip Ashley e seu ódio se trasnforma em amor.
Mas por trás do doce encanto de Raquel escondia-se algum mistério e esta áurea de suspense, comum na obra de Daphne Du Maurier, nunca abandona as páginas do romance.
O próprio Philip, nas primeiras páginas da sua narração, deixa claro o mistério, afirmando que nunca terá verdadeira certeza sobre a culpa ou inocência de Raquel, fato que o atormentará mesmo que ele viva séculos.
A imagem do enforcado Tom Jenkyn, que um dia Ambrose levara o pequeno primo para ver, exemplifica muito bem a condição de incerteza na qual o jovem Philip viverá. Quando Philip pede desculpas ao falecido Tom, por ter-lhe atirado uma pedra no corpo que balançava naquela forca, o pessimismo e a infelicidade do jovem ficam muito claros, pois ele afirma que, se tivesse olhado para trás, para o homem condenado e enforcado, teria visto a sua própria sombra balouçando-se em suas correntes. Talvez isso justifique as frases que iniciam e finalizam o romance: "Nos velhos tempos, era costume enforcarem-se os homens na Encruzilhada. Hoje não é mais assim."

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar - O adeus ao escritor gaúcho



















A Literatura está de luto neste dia 27 de fevereiro de 2011.Morreu na cidade de Porto Alegre,
Moacyr Jaime Scliar, ou apenas Moacyr Scliar, como é conhecido pelo grande público. Foi Também na capital gaúcha que o escritor nasceu, no dia 23 de março de 1937. Moacyr Scliar tinha 73 anos e seu nome ficará marcado eternamente na Literatura de Língua Portuguesa. O blog "Devaneios Literários" sente muito a perda deste grande escritor.




Bibliografia:


Conto

O carnaval dos animais. Porto Alegre, Movimento, 1968.

A balada do falso Messias. São Paulo, Ática, 1976.

Histórias da terra trêmula. São Paulo, Escrita, 1976.

O anão no televisor. Porto Alegre, Globo, 1979.

Os melhores contos de Moacyr Scliar. São Paulo, Global, 1984.

Dez contos escolhidos. Brasília, Horizonte, 1984.

O olho enigmático. Rio, Guanabara, 1986.

Contos reunidos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

O amante da Madonna. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997.

Os contistas. Rio, Ediouro, 1997.

Histórias para (quase) todos os gostos. Porto Alegre, L&PM, 1998.

Pai e filho, filho e pai. Porto Alegre, L&PM, 2002.


Romance

A guerra no Bom Fim. Rio, Expressão e Cultura, 1972. Porto Alegre, L&PM.

O exército de um homem só. Rio, Expressão e Cultura, 1973. Porto Alegre, L&PM.

Os deuses de Raquel. Rio, Expressão e Cultura, 1975. Porto Alegre, L&PM.

O ciclo das águas. Porto Alegre, Globo, 1975; Porto Alegre, L&PM, 1996.

Mês de cães danados. Porto Alegre, L&PM, 1977.

Doutor Miragem. Porto Alegre, L&PM, 1979.

Os voluntários. Porto Alegre, L&PM, 1979.

O centauro no jardim. Rio, Nova Fronteira, 1980. Porto Alegre, L&PM.

Max e os felinos. Porto Alegre, L&PM, 1981.

A estranha nação de Rafael Mendes. Porto Alegre, L&PM, 1983.

Cenas da vida minúscula. Porto Alegre, L&PM, 1991.

Sonhos tropicais. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.

A majestade do Xingu. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.

Os leopardos de Kafka. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

Na Noite do Ventre, o Diamante. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2005.


Ficção infanto-juvenil

Cavalos e obeliscos. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1981; São Paulo, Ática, 2001.

A festa no castelo. Porto Alegre, L&PM, 1982.

Memórias de um aprendiz de escritor. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1984.*

No caminho dos sonhos. São Paulo, FTD, 1988.

O tio que flutuava. São Paulo, Ática, 1988.

Os cavalos da República. São Paulo, FTD, 1989.

Pra você eu conto. São Paulo, Atual, 1991.

Uma história só pra mim. São Paulo, Atual, 1994.

Um sonho no caroço do abacate. São Paulo, Global, 1995.

O Rio Grande farroupilha. São Paulo, Ática, 1995.

Câmera na mão, o Guarani no coração. São Paulo, Ática, 1998.

A colina dos suspiros. São Paulo, Moderna, 1999.

Livro da medicina. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2000.

O mistério da Casa Verde. São Paulo, Ática, 2000.

O ataque do comando P.Q. São Paulo, Ática, 2001.

O sertão vai virar mar, São Paulo, Ática, 2002.

Aquele estranho colega, o meu pai. São Paulo, Atual, 2002.

Éden-Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.

O irmão que veio de longe. Idem, idem.

Nem uma coisa, nem outra. Rio, Rocco, 2003.

Navio das cores. São Paulo, Berlendis & Vertecchia, 2003.


Crônica

A massagista japonesa. Porto Alegre, L&PM, 1984.

Um país chamado infância. Porto Alegre, Sulina, 1989.

Dicionário do viajante insólito. Porto Alegre, L&PM, 1995.

Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Porto Alegre, L&PM, 1996. Artes e Ofícios, 2001.

O imaginário cotidiano. São Paulo, Global, 2001.

A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal. Porto Alegre.


Ensaio

A condição judaica. Porto Alegre, L&PM, 1987.

Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública. Porto Alegre, L&PM, 1987; SP, Senac, 2002.

Cenas médicas. Porto Alegre, Editora da Ufrgs, 1988. Artes&Ofícios, 2002.

Se eu fosse Rotschild. Porto Alegre, L&PM, 1993.

Judaísmo: dispersão e unidade. São Paulo, Ática, 1994.

Oswaldo Cruz. Rio, Relume-Dumará, 1996.

A paixão transformada: história da medicina na literatura. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

Meu filho, o doutor: medicina e judaísmo na história, na literatura e no humor. Porto Alegre, Artes Médicas, 2000.

Porto de histórias: mistérios e crepúsculos de Porto Alegre. Rio de Janeiro, Record, 2000.

A face oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2000.

A linguagem médica. São Paulo, Publifolha, 2002.

Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento da ciência no Brasil. São Paulo, Odysseus, 2002.

Saturno nos trópicos: a melancolia européia chega ao Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.

Judaísmo. São Paulo, Abril, 2003.

Um olhar sobre a saúde pública. São Paulo, Scipione, 2003.


O escritor gaúcho teve sua obra traduzida para diversos idiomas, entre eles inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, russo e hebraico.


A noite em que os hotéis estavam cheios

Moacyr Scliar


O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.

Fonte: www.releituras.com/mscliar




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Venha ver o pôr-do-sol - Lygia Fagundes Telles


Uma paixão, ou melhor, um coração ferido pelo abandono, pode tornar um amante cruel a ponto de fazer com que a pessoa amada sofra um dos piores castigos que já afligiram a humanidade?
Ao convidar a amada Raquel para um passeio de despedida, Ricardo demonstra (pelo menos depois que o leitor termina de ler o conto) um calculismo surpreendente ao tecer a situação que aprisionará a moça num pesadelo sem fim.
Cada detalhe do conto deixa claro o mau presságio que acompanha os dois amantes...a rua quase deserta, as crianças que brincam sem medo, a promessa de ofececer o mais belo pôr-do-sol do mundo à amada, o cemitério abandonado, onde, segundo Ricardo, a morte se totaliza com o abandono dos vivos...além dos arrepios de frio que Raquel sofre durante durante o passeio e o trecho que melhor exemplifica esta colocação:

Raquel tirou‑lhe o cigarro, tragou e depois devolveu‑o. ‑ Eu gostei de você, Ricardo. ‑E eu te amei.. E te amo ainda. Percebe agora a diferença? Um ‑ pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu. ‑ Esfriou, não? Vamos embora. ‑ Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Seriam os sentimentos dos dois mesmo tão diferentes ou Raquel apenas não queria admitir o amor pelo ex-namorado "sem rumo" e mal sucedido na vida?
O certo é que Ricardo a ilude, ilude até mesmo os leitores, que se identificam com ele e sentem pena do abandono ao qual foi exposto.
Raquel, mesmo desconfiada e com medo, vai com ele até o jaziguo da "familia".
A catarse é perfeita, o leitor sente na pele a agonia de Raquel ao ver-se trancada...seus gritos são perfeitamente compreenssíveis...Ricardo cumprira mesmo a promessa, ela ia ter, pela pequena fresta no túmulo, o mais belo por-do-sol do mundo.
O desfecho do conto é surpreendete e provoca uma sensação de desespero e incredulidade quando Ricerdo abandona a amada trancada do jaziguo e caminha para fora do cemitério tranquilamente, já que não precisaria se preocupar, pois aquele lugar era abandonado há muitos anos por vivos e a morte se fazia completa.