terça-feira, 2 de junho de 2009

LEON TOLSTÓI


Leon Nikolaievitch Tolstoi não é apenas um dos maiores romancistas russos e da literatura universal, mas um profeta de uma ordem moral e social, um renovador religioso, um homem que abandonou os privilégios de sua classe para viver junto aos pobres, como um deles. Seu sonho de viver conforme a natureza e conforme os preceitos de um cristianismo evangélico – características de um anarquismo cristão – já não têm muitos adeptos. Mas sua doutrina de procurar fazer reformas políticas sem o uso da violência continua atual na política moderna, e seu maior exemplo, é Gandhi. Descendente de uma família de latifundiários da alta aristocracia que tinha livre acesso junto aos czares, Leon Tolstoi nasceu em Iasnaia Poliana, 160 km ao sul de Moscou, na província de Tula, em 9 de setembro de 1828. Tendo seu pai, viúvo, falecido quando Leon tinha apenas nove anos de idade, ele, junto com outros quatro irmãos, foi entregue aos cuidados da tia Alieksandra Osten-Sacken, que se incumbiu de educar as crianças. Como era moda naquela época, os filhos de nobres eram educados por professores particulares, de prefer~encia por estrangeiros. Não ficava bem um senhor de terras expressar-se em russo como qualquer mujique (camponês). Assim, tia Alieksandra contratou os serviços de um preceptor alemão de nome Ressel. Embora o professor alemão não ficasse muito bem impressionado com as crianças, pelo menos ajudou o pequeno Leon a desenvolver o gosto pela arte de escrever. Em 1841, a tia faleceu, e os meninos foram entregues a outra irmã de seu pai. Pieguela, que morava em Kazan, era uma mulher severa, de rígidos princípios morais. Mal pôs os olhos em Leon, decidiu que ele seria militar ou, na pior das hipóteses, um diplomata. Em 1944, o jovem Leon Tolstoi estava estudando na Universidade de Kazan. Mas logo se revelou um aluno medíocre, que decepcionava Pieguela: nem se comportava segundo o manual aristocrata de boas maneiras, nem se distinguia nos estudos. Julgando que tivesse escolhido um curso errado, transferiu-se para a faculdade de Direito, mas foi reprovado nos primeiros exames.
Desiludido da escola e cansado de ouvir recriminações da tia, em 1847 Leon retornou a Iasnaia Poliana. Após ficar uns poucos meses na fazenda, entre 1848 e 1852 passou uma temporada entre Moscou e São Petersburgo, dedicando-se a uma vida mundana e devassa. Apesar de ter retomado o curso de Direito em São Petersburgo, não se destacou como aluno, mas como farrista de primeira classe e namorador incorrigível. Nesse período, começou a ler a Bíblia e as obras de Jean-Jacques Rousseau e, ao terminar essas leituras, sentiu-se ainda mais inquieto. Quando seu irmão Nicolau voltou do Cáucaso, onde combatera, os relatos das aventuras do irmão despertaram em Leon o desejo de participar da vida militar. Em 1852 estava no Cáucaso, apaixonado por uma camponesa e pela paisagem. Entre contemplações namoros, lutou com bravura contra as tribos de montanheses e despertou a admiração de seus companheiros. Nesse mesmo ano, publicou, na revista Sovremennik (“O Contemporâneo”), de São Petersburgo, os capítulos de Detstvo (“Infância”), no qual faz um relato minucioso de sua meninice. No ano seguinte estourou a Guerra da Criméia (1853-1856) e Tolstoi voltou a combater. Agora, decepcionado com a guerra, com as atitudes do czar Nicolau II, que provocara o conflito, escreveu os Relatos de Sebastopol, nos quais descreveu o drama diário de uma cidade sitiada. As histórias penetraram nos salões da nobreza, fizeram o povo chorar e artistas de toda a Rússia passaram a arder de entusiasmo por conhecê-lo. Ao desembarcar em São Petersburgo, após a derrota das tropas russas em Malakhov (1855), Tolstoi foi recebido por uma multidão de admiradores que o trataram como herói. Mas, naquele momento, o jovem Tolstoi ansiava por ficar consigo mesmo e não dispunha de um momento sequer de solidão. Em 1857, decidiu partir para o exterior. Viajou pela Alemanha, França, Itália e Suíça. Dois anos depois, retornou a Iasnaia Poliana carregado de livros de filosofia e pedagogia. Torturava-se com dúvidas e escrúpulos, quanto à necessidade da arte e do seu direito de usufruir sua riqueza no meio da miséria do povo. Sentia a urgente necessidade de fazer algo pela Rússia, e que devia começar pelos que lhe estavam mais próximos: os servos de Iasnaia Poliana. Em 1859 fundou, em sua propriedade, uma escola para crianças e adultos, e começou a tratar seus empregados com os métodos que aprendera no Ocidente, baseando-se na compreensão e na bondade e excluindo qualquer castigo corporal. Porém, antes de iniciar suas atividades como professor, viajou para Hières, no sul da França, onde seu irmão Nicolau tentava curar-se de uma infecção pulmonar. Junto com ele, escreveu Kasaki (“Os Cossacos”), reminiscência de sua estada no Cáucaso. Com a morte do irmão, Tolstoi, em vez de voltar para a sua fazenda, foi para Londres onde, em companhia de seu amigo Alexander Herzen, festejou a emancipação dos servos da Rússia, decretada pelo czar Alexandre II. Sentindo que a emancipação dos servos abria a perspectiva de uma nova era para o povo russo, Tolstoi retornou a Iasnaia Poliana e colocou-se à disposição do governo. Trabalhou como juiz de paz na província, com o encargo de contornar os possíveis problemas entre proprietários e antigos mujiques. Foi quando conheceu Sófia Andreievna, uma adorável jovem de 17 anos por quem se apaixonou. O casamento se realizou em setembro de 1862. Sua felicidade seria completa se graves problemas financeiros não o obrigassem a fechar a escola e abandonar a revista pedagógica que havia fundado após seu casamento. As dificuldades econômicas levaram Tolstoi a encarar a necessidade de ter a Literatura como meio de vida. A consagração que recebera ao voltar a São Petersburgo dera-lhe a certeza de conseguir êxito como escritor. Precisava apenas escolher um tema que lhe propiciasse uma obra grandiosa e, ao mesmo tempo, de valor artístico. Não encontrou assunto melhor do que a resistência russa às invasões napoleônicas. Serviu-se desse feito histórico para produzir seu mais ambicioso romance: Voina e Mir (“Guerra e Paz”). A elaboração da obra estendeu-se por seis anos de intenso trabalho, pesquisa e correções. Sòfia atuou como secretária, copiando e recopiando, vezes sem conta, o manuscrito constantemente alterado. Iniciada em 1863, a obra somente foi concluída em 1869. Guerra e Paz é um dos grandes romances da literatura universal. Parece um romance histórico, mas, na verdade, é um amplo panorama da vida social russa. Os numerosos personagens são descritos com ternura e profundidade psicológica: o verdadeiro vencedor, no final, é a mãe que levanta as fraldas da criança recém-nascida, que continuará a vida de geração em geração. O livro foi recebido com entusiasmo pelo público e pela crítica; no entanto, não faltaram os insatisfeitos. Entre eles, Ivan Turguéniev, o velho amigo dos tempos de São Petersburgo que melindrado por seu triunfo, censurou a obra com azedume. Mas Guerra e Paz propiciou a Tolstoi lucros suficientes para reabrir a escola, tempo livre pra ler os grandes clássicos da literatura universal e voltar a escrever. Em Ana Karênina, não é menor a arte do seu romance. Baseado num caso real de adultério, conta a história de Ana Karenina e de seu amante Vronski. Abalada por uma paixão adúltera, Ana resvala cada vez mais por um abismo de mentiras e contradições, que acabam conduzindo-a ao suicídio. Publicado entre 1875 e 1877 no Mensageiro Russo, o romance agradou intensamente ao público e provocou variadas reações entre os críticos. Dentre os grandes romancistas da época, Dostoievski foi o único a aplaudir, no que é hoje considerado o maior romance sobre adultério da literatura universal. Mas críticas e elogios deixaram o escritor indiferente. As preocupações de Tolstoi agora ultrapassavam o domínio da arte para se concentrar nos grandes problemas morais e religiosos. As dúvidas sobre o sentido da vida repetiam-se em seu cérebro cada vez com maior insistência. Entre 1878 e 1879, Tolstoi passou por uma grave crise religiosa. Abandonou a religião ortodoxa oficial e optou por uma espécie de cristianismo evangélico moral e sem dogmas. Chegou a publicar vários livros sobre suas novas crenças. A Igreja oficial reagiu e Tolstoi foi excomungado. Mas as autoridades não ousaram molestá-lo, pois ele era considerado um herói da Rússia e gozava de enorme popularidade. Em 1886, por insistência da mulher e de admiradores, temerosos que ele abandonasse a literatura, Tolstoi abriu um parêntese em suas investigações religiosas para escrever A Morte de Ivan Ilitch. É um livro terrível, cruel e de um humor sombrio. É a história de um homem com uma doença mortal e em agonia, que revela sua vida, que foi inútil e sem sentido como a vida da maior parte dos homens. Foi, talvez, seu último grande romance. Depois disso, Tolstoi ainda continuou a escrever. Missa Confissão (1882) é uma espécie de auto-expiação de seus pecados de mocidade; A Sonata de Kreuzer (1889), um verdadeiro libelo contra o amor carnal; Ressurreição (1900) descreve o sofrimento dos condenados à deportação; e O Cadáver Vivo (1900) é o drama de um homem que desaparece para não perturbar a vida dos outros. São obras de valor, mas que marcam um certo declínio do autor, que agora convivia com outros dilemas pessoais e existenciais. Nesse tempo, Tolstoi já vivia separado da família, que continuava a ocupar a casa da fazenda, enquanto o escritor, com longa barba e pobremente vestido, morava num barracão, participando da vida e do trabalho dos camponeses, lavrando a terra e remendando sapatos. Contudo, nem sempre o escritor conseguia viver segundo as idéias que dizia professor. Em A Sonata a Kreuzer, pregava a abstinência sexual entre os casais, Mas, no mesmo ano da publicação, nascia-lhe o seu décimo terceiro filho. Aconselhava o desapego aos bens materiais, e queria desfazer-se de suas propriedades em favor dos pobres. Mas sua família jamais permitiu e teve de contentar-se em ceder a Sófia e aos filhos todas as suas posses. Desejava viver como um mendigo, e tentou uma experência desse tipo, mas foi logo reconhecido e excluído dos pobres. Enfim, o velho octogenário resolveu afastar-se dessa situação ambígua. Em 1908, redigiu um artigo de vibrante indignação contra a situação do povo russo, que a censura imperial tentou vetar. Contudo, Não Posso Calar saiu impresso em jornais estrangeiros, despertando a consciência da Europa para os problemas russos. Apesar da severa vigilância, o artigo acabou sendo distribuído clandestinamente em seu próprio país. Mas esse foi seu último gesto de rebeldia. Tolstoi já estava cansado, doente, sem forças para lutar. Desesperado por não conseguir realizar seus sonhos, decidiu afastar-se da mulher, dos filhos e dos amigos. Na fuga, acabou morrendo de inanição, no gelado inverno russo, em 20 de novembro de 1910, quando mal acabava de chegar à estação ferroviária de Astapova.

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